O que o cigarro muda no diabetes?
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O cigarro fere a parede do vaso diretamente e estreita mais um tanto os caminhos que o diabetes já força. A carga mais bem medida está no coração e no cérebro; a circulação do rim e do pé também tem parte. Por cima, a resistência à insulina sobe. O retorno de parar não vem numa noite; se acumula em anos.
Ao chegar ao sangue, a fumaça do cigarro encontra primeiro o revestimento interno dos vasos. A fumaça desregula o funcionamento dele, aumenta a tendência à coagulação e reduz a capacidade do sangue de levar oxigênio. O diabetes já desgasta esse mesmo revestimento; os dois efeitos se sobrepõem. O artigo sobre o coração descreve esse revestimento: sua estrutura e como se desgasta.
O segundo ponto vem menos à tona. Em fumantes, mede-se resistência à insulina mais acentuada que em não fumantes; a tendência da gordura a se juntar no meio do corpo vai no mesmo sentido. Ou seja, a fumaça não para só no lado dos vasos, também dificulta o equilíbrio da glicemia.
| Onde toca | O que diz a evidência |
|---|---|
| Coração e cérebro | Risco de morte e de evento vascular sobe marcadamente; achado mais consistente aqui |
| Rim | Vazamento de albumina na urina e perda de função avançam mais rápido |
| Nervos | Acometimento tem curso mais grave; dado mais consistente no diabetes tipo 1 |
| Olho | Achados não são unânimes; vínculo menos claro que os demais |
| Pé | Circulação da perna se estreita, cicatrização de feridas atrasa |
O número que dá a direção vem de uma grande revisão. Reunidos oitenta e nove estudos de acompanhamento, viu-se que o cigarro elevava em cerca de metade o risco de morte e de evento vascular em quem tem diabetes. Já o quadro dos vasos pequenos não é tão uniforme; os achados mais consistentes se juntam no acometimento de rim e nervos, e sobretudo no diabetes tipo 1.
É preciso dizer o retorno de parar como é. O aumento de peso é comum no primeiro ano, e a glicemia pode oscilar por alguns anos. Essa oscilação não se sente; o que a torna visível são as medições guardadas ao parar. Na mesma revisão, porém, o risco de morte de quem parou saiu marcadamente abaixo do de quem seguiu fumando. Não desce de todo ao nível de quem nunca fumou; mesmo assim, boa parte do caminho se fecha.
O resumo da Organização Mundial da Saúde, preparado em parceria com a Federação Internacional de Diabetes, também olha para o mesmo lado. Apesar do aumento de peso de curto prazo, parar reduz o risco de diabetes tipo 2 no longo prazo, e o ganho cresce com o tempo sem fumar.
No dia a dia a diferença aparece primeiro em coisas pequenas. O tempo de recuperação do seu fôlego ao subir escadas, seus pés esquentando na caminhada da noite, a cor das pontas dos dedos no frio. Uma pequena rachadura no pé que demora a fechar também sinaliza essa mesma circulação. Não são medições, mas marcas lidas no dia a dia.
Culpar não tem lugar aqui. A dependência de nicotina é assunto dos circuitos de recompensa do cérebro, não da vontade; parar leva algumas tentativas, e tentar de novo é parte normal do processo. O que se precisa entender é simples: no diabetes, o preço do cigarro se paga não só no pulmão, mas em toda a rede de vasos.
Fontes consultadas
- Pan A, Wang Y, Talaei M, Hu FB. Relation of Smoking With Total Mortality and Cardiovascular Events Among Patients With Diabetes Mellitus: A Meta-Analysis and Systematic Review. Circulation. 2015;132(19):1795–1804. doi:10.1161/CIRCULATIONAHA.115.017926
- Zhu P, Pan XF, Sheng L, Chen H, Pan A. Cigarette Smoking, Diabetes, and Diabetes Complications: Call for Urgent Action. Curr Diab Rep. 2017;17(9):78. doi:10.1007/s11892-017-0903-2
- Walicka M, Russo C, Baxter M, John I, Caci G, Polosa R. Impact of stopping smoking on metabolic parameters in diabetes mellitus: A scoping review. World J Diabetes. 2022;13(6):422–433. doi:10.4239/wjd.v13.i6.422
- World Health Organization. Tobacco and diabetes. WHO tobacco knowledge summary. Geneva: World Health Organization; 2023. ISBN 978-92-4-008417-9.