O movimento faz a glicemia cair?
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Para o movimento baixar a glicemia, precisa haver insulina em cena ou um remédio que force o pâncreas a liberar insulina. Em quem usa um remédio assim, a queda vem em duas janelas separadas: enquanto a sessão corre e depois que ela termina. A segunda janela chega até o sono, e é a mais difícil de notar.
O músculo em trabalho puxa glicose do sangue e, num ajuste saudável, a liberação de insulina recua no mesmo momento e o fígado cobre a diferença. A insulina vinda de fora não dá esse passo atrás, e um comprimido que força o pâncreas também não. O efeito parado no sangue continua ali, por mais que o músculo puxe. Outro texto explica do começo por que a glicemia cai; aqui a pergunta é mais estreita: o que o movimento acrescenta a esse quadro por si?
Um dos acréscimos é a duração. A queda vem também enquanto a sessão corre, os primeiros minutos do exercício inclusive. A segunda janela abre depois que a sessão termina e é bem mais longa. Enquanto o músculo segue repondo o estoque que esvaziou, o efeito se espalha por meio dia. Essa cauda se mostra horas depois da sessão, numa fome fora de hora ou em pernas que ficam inesperadamente pesadas na escada.
A intensidade não elimina essas duas janelas, só embaralha a ordem. Num esforço curto e duro o valor sobe na hora, porque os hormônios do estresse colocam a liberação do fígado à frente do consumo do músculo. A subida é passageira. Depois que o nível dos hormônios baixa, a reposição do estoque ainda entra na conta da mesma sessão. Ou seja, um treino que termina subindo também deixa uma cauda longa. Para quem não viu a sessão, duração e intensidade muitas vezes viram algumas palavras ditas depois. O que ficou de fora delas quem mostra é a cauda que vem horas depois.
O movimento também fecha uma cortina. Suor, coração acelerado e perna trêmula estão entre os primeiros avisos da queda, mas um corpo que corre já tem os três. O suor que molha as costas e o suor da queda não se separam. Fora da cortina ficam os sinais do cérebro sem combustível: a palavra que roda na boca, a confusão num caminho conhecido, o pé e a mão que não se acertam. Correr não produz esses sinais.
O relógio decide onde a cauda vai cair; a de um treino no fim da tarde coincide com o sono, a faixa do dia que ninguém olha. A maioria das quedas no sono nem acorda a pessoa. Uma dor de cabeça que sobra de manhã ou um despertar sem descanso pode ser o único registro da noite. Quem reúne todos os rastros é o texto sobre a queda noturna de glicemia. A conta do movimento fecha não na sessão, mas nas horas seguintes.
Fontes consultadas
- Younk LM, Mikeladze M, Tate D, Davis SN. Exercise-related hypoglycemia in diabetes mellitus. Expert Review of Endocrinology & Metabolism. 2011;6(1):93-108.
- Basu R, Johnson ML, Kudva YC, Basu A. Exercise, Hypoglycemia, and Type 1 Diabetes. Diabetes Technology & Therapeutics. 2014;16(6):331-337.
- Davis HA, Spanakis EK, Cryer PE, Siamashvili M, Davis SN. Hypoglycemia During Therapy of Diabetes. Endotext. South Dartmouth (MA): MDText.com, Inc.; updated 2024.
- Kulzer B, Freckmann G, Ziegler R, Schnell O, Glatzer T, Heinemann L. Nocturnal Hypoglycemia in the Era of Continuous Glucose Monitoring. Journal of Diabetes Science and Technology. 2024;18(5):1052-1060.