O que o diabetes faz com os olhos?
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O diabetes toca o olho pela retina: os capilares que alimentam essa malha primeiro vazam, depois entopem. No estágio avançado, brotam vasos novos e frágeis. O detalhe mais importante: no estágio inicial a visão não piora em nada. Por isso o rastreamento não espera queixa, olha a parte de trás do olho.
A retina é a fina camada em rede que reveste a parede de trás do olho; ali ficam as células que transformam luz em sinal. Os capilares mais finos do corpo a alimentam. A glicose alta por muito tempo enfraquece a parede desses capilares: as células de sustentação somem, a membrana basal engrossa. Quando a parede fica permeável, líquido e proteína vazam para a retina; o mesmo processo entope de vez parte dos capilares.
A região entupida fica sem oxigênio e a retina pede socorro; os sinais de crescimento liberados mandam fazer vasos novos. O problema é que esses vasos novos são frágeis e sangram; este é o estágio avançado da retinopatia diabética. Quando o sangramento se espalha dentro do olho, a imagem embaça de repente ou surgem manchas pretas flutuantes.
O edema macular é um assunto à parte. A mácula é a zona de visão nítida bem no centro da retina; é ali que você lê a tela do celular, rostos e textos. Quando o líquido vazado se acumula ali, a retina engrossa e a visão central fica apagada. É a principal causa de queda de visão no diabetes, e surge sem esperar o estágio avançado da retinopatia.
O lado mais enganoso do estágio inicial é o silêncio. Os capilares já começaram a mudar, mas a acuidade visual continua inteira; nem ler nem dirigir pioram. Por isso a retinopatia se detecta pelo olhar, não pela queixa. No exame de fundo de olho, o colírio dilata a pupila e então o médico olha a retina com luz especial ou câmera de retina. O alvo dele são os próprios vasos: pequenos balonamentos nos capilares, sangramentos puntiformes, manchas amareladas deixadas pelo vazamento. Os padrões de cuidado da Associação Americana de Diabetes pautam esse exame sem que se procure sintoma; o texto sobre rastreamento aborda por que o início muda conforme o tipo de diabetes.
Quando o olho começa a se fazer notar, percebe-se isto:
- Visão apagada bem no centro; linhas retas que parecem onduladas ou quebradas
- Manchas flutuantes repentinas, sombras como fios de cabelo, uma névoa avermelhada
- Cortina ou sombra fixa que desce sobre um canto do campo visual
- Mais ofuscamento ao redor dos faróis dos carros à noite, adaptação ao escuro mais difícil
- Embaçamento percebido ao cobrir um olho e ausente no outro
A maioria desses sinais se instala ao longo de dias. Já a cortina repentina, o súbito aumento das manchas ou a queda rápida da visão em um olho ficam à parte. O sangramento dentro do olho e o descolamento de retina avançam na escala de horas e exigem avaliação ocular urgente. O que define a urgência não é a intensidade do sinal, e sim a chegada repentina.
- Precisa rastrear os olhos mesmo com a visão boa?
- Sim, e o motivo é esse mesmo: a retinopatia inicial não afeta a visão. As alterações dos capilares só aparecem quando se olha a retina; a pessoa não sente nada nesse momento.
- Visão embaçada é sempre retinopatia?
- Não, existe também um tipo passageiro. Quando a glicose muda rápido, o equilíbrio de água do cristalino se altera, seu poder de foco desvia e a imagem não vem nítida. Com a glicose estável, o cristalino volta ao estado de antes; essa recuperação leva semanas, por isso o grau de óculos medido nesse período não conta como estável. Já o embaçamento ligado à retina vem junto com visão apagada no centro, distorção ou manchas flutuantes.
- Se a glicemia melhorar, a retinopatia volta atrás?
- Parte das alterações do estágio inicial estaciona, e até regride. Os vasos novos formados no estágio avançado e o dano na mácula não regridem sozinhos; ali o tratamento visa preservar a visão.
A escala de tempo da retinopatia se conta em anos, e o estágio inicial não deixa nenhum rastro. Por isso a informação mais valiosa sobre o olho não é como ele enxerga, e sim como se mostra sua parte de trás.
Fontes consultadas
- American Diabetes Association Professional Practice Committee. 12. Retinopathy, Neuropathy, and Foot Care: Standards of Care in Diabetes—2026. Diabetes Care. 2026;49(Suppl 1):S261–S276. doi:10.2337/dc26-S012
- Shukla UV, Tripathy K. Diabetic Retinopathy. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; last updated 25 August 2023. Bookshelf ID: NBK560805.
- Zhang J, Zhang J, Zhang C, et al. Diabetic Macular Edema: Current Understanding, Molecular Mechanisms and Therapeutic Implications. Cells. 2022;11(21):3362. doi:10.3390/cells11213362
- Charman WN, Adnan, Atchison DA. Gradients of refractive index in the crystalline lens and transient changes in refraction among patients with diabetes. Biomed Opt Express. 2012;3(12):3033–3042. doi:10.1364/BOE.3.003033
- Türkiye Endokrinoloji ve Metabolizma Derneği (TEMD). Diabetes Mellitus ve Komplikasyonlarının Tanı, Tedavi ve İzlem Kılavuzu-2026. 17. Baskı. TEMD; 2026. ISBN 978-625-99759-8-6