Por que as feridas demoram a cicatrizar?
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A cicatrização não é um evento único, e sim uma cadeia que avança em ordem, e a glicose alta retarda seus elos um a um. O sangramento para, a limpeza começa, novos vasos se tecem, o colágeno se deposita. No diabetes essa ordem falha em mais de um ponto, por isso um arranhão pequeno fica semanas sem fechar.
Quatro equipes trabalham em ordem enquanto a pele fecha. Primeiro o sangramento para e um coágulo cobre a superfície. Depois chega a equipe de limpeza: as células de defesa recolhem tecido morto e micróbios. Em seguida a equipe de construção tece novos capilares e preenche o vão com tecido novo. Por último o colágeno se realinha, e o local da ferida endurece por semanas e ganha força.
A primeira falha aparece na etapa de limpeza: a glicose alta enfraquece a capacidade das células de defesa de chegar à ferida e engolir micróbios. Ao mesmo tempo, essa fase não termina nunca; as células inflamatórias ficam no lugar e não abrem espaço para a equipe seguinte. A ferida não avança, emperra na primeira etapa.
A segunda falha está na etapa de tecer vasos: o tecido novo só se alimenta se houver um capilar por perto, porque o oxigênio percorre distância muito curta. No diabetes a superfície interna do vaso está desgastada e os sinais que chamam novos vasos saem fracos. Se os vasos da perna também estiverem estreitados, já chega pouco sangue à região. As duas carências se somam e o tecido fica sem oxigênio.
| Etapa da cicatrização | O normal | O que falha no diabetes |
|---|---|---|
| Parada do sangramento | Coágulo fecha a superfície | Coágulo se forma; falha começa nas etapas seguintes |
| Limpeza | Células de defesa recolhem o tecido morto | Células chegam tarde, inflamação fica no lugar |
| Construção | Rede de capilares se tece, colágeno preenche o vão | Sinal que chama vasos enfraquece, colágeno diminui, enzimas de degradação aumentam |
| Consolidação | Local da ferida ganha força | Superfície fechada se abre com mais facilidade |
A terceira falha está no material de construção; as células que produzem colágeno trabalham devagar e o tecido resultante é ao mesmo tempo escasso e desorganizado. Enquanto isso, as enzimas que desmontam o tecido fazem hora extra e o equilíbrio entre construção e degradação pende para a degradação. A superfície fechada também não fica tão firme quanto antes; por isso o mesmo ponto se reabre com frequência.
A soma dessas falhas é uma perda de tempo, e o tempo favorece os micróbios. Cada dia em aberto é uma chance a mais para eles se instalarem; a camada acumulada também dificulta a chegada do remédio ao tecido. Um corte na cozinha ou um espinho que entra na pele no jardim é trabalho de uma semana numa pele saudável. No diabetes a mesma ferida fica aberta por semanas.
Uma ferida fora de rumo tem sinais próprios: vermelhidão que se espalha para fora da borda, inchaço, calor que aumenta ao toque, secreção e odor. Esses sinais dizem que a cicatrização não parou, e sim que se inverteu. A escala de tempo também faz parte desse quadro. Se a borda da vermelhidão se alarga em horas, a ferida deixa de ser assunto da próxima consulta; o texto sobre urgência inclui esse sinal entre os avaliados no mesmo dia. Num pé com dano nos nervos, a dor pode não acompanhar esse quadro; a ausência de dor não o torna mais leve. Por que o pé como um todo se destaca não é assunto desta página. A resposta dessa pergunta está no título “Por que os pés importam tanto?”.
Cada elo da cadeia tem o mesmo terreno: a glicose alta por muito tempo. O colágeno endurece, a superfície interna do vaso se desgasta, as células de defesa desaceleram. O cigarro e o problema de circulação empurram na mesma direção. Por isso o curso de uma ferida não se lê só pela ferida; até uma abertura tão pequena quanto um corte de papel se apoia nesse terreno.
Fontes consultadas
- Burgess JL, Wyant WA, Abdo Abujamra B, Kirsner RS, Jozic I. Diabetic Wound-Healing Science. Medicina (Kaunas). 2021;57(10):1072. doi:10.3390/medicina57101072
- Huang K, Mi B, Xiong Y, et al. Angiogenesis during diabetic wound repair: from mechanism to therapy opportunity. Burns Trauma. 2025;13:tkae052. doi:10.1093/burnst/tkae052
- Senneville É, Albalawi Z, van Asten SA, et al. IWGDF/IDSA guidelines on the diagnosis and treatment of diabetes-related foot infections (IWGDF/IDSA 2023). Diabetes Metab Res Rev. 2024;40(3):e3687. doi:10.1002/dmrr.3687
- Schaper NC, van Netten JJ, Apelqvist J, et al. Practical guidelines on the prevention and management of diabetes-related foot disease (IWGDF 2023 update). Diabetes Metab Res Rev. 2024;40(3):e3657. doi:10.1002/dmrr.3657